Programa de bolsas estudantis reúne estudantes de todo o país em Prudente

E neste encontro, culturas se misturam, gírias, regionalismos e sotaques se misturam e cria-se uma nova cultura. Nesta reportagem você vê como isso acontece.

Por: Annelisa Nunes, Daniela Silis, Gian Nascimento e Jéssica Furlan

Já imaginou da noite pro dia deixar sua casa, família, amigos e tudo o que está habituado, para viver em outra região, com pessoas desconhecidas e totalmente diferentes de você? Pois essa é a história da estudante Leidiane Dias, de 28 anos, que em agosto de 2012 deixou Nova Xavantina (MT) e desembarcou em Presidente Prudente, uma distância de 905 km, com o sonho de em seis anos deixar a cidade como médica.

“Não conhecia a cidade. Cheguei dois dias antes sem conhecer nada, nem ninguém, passei um dia inteiro buscando um lugar para morar, no fim das contas deu tudo certo e consegui ser bem acolhida”, diz.

Dias é uma das 213 mil pessoas em todo o país que são beneficiadas atualmente pelo Programa Universidade para Todos, o Prouni. Criado em 2005, o programa proporciona aos estudantes a oportunidade de concorrer a uma bolsa integral ou parcial em faculdades privadas de todas as regiões do Brasil. Para isso, eles devem ter cursado todo o Ensino Médio em escolas da rede pública ou em particulares com bolsa integral, além de uma renda per capita de no máximo R$ 1.088. A vaga é definida através do desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) do ano anterior. Alunos de cursos com carga horária superior à seis horas diárias recebem ‘bolsa auxílio’ de R$ 400.

Segundo Dias, o Prouni foi fundamental para que o sonho de cursar uma faculdade de Medicina pudesse se tornar realidade. Ela conta que antes de chegar ao Estado de São Paulo, já havia cursado Administração em Barra do Garças (MT), Enfermagem em Goiânia (GO), mas não terminou nenhuma por falta de condições. Nesta época foi trabalhar como tenente da Polícia Militar no Estado do Mato Grosso após fazer dois anos de curso preparatório para passar em um vestibular para Medicina e não ter conseguido.

O crescimento do número de estudantes no ensino superior é visível após a criação do Prouni. Até 2006, quando foi realizado o primeiro Censo de Ensino Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), apenas 1,4milhão de estudantes estavam matriculados em cursos de graduação no país. Já em 2014 o número cresceu 421, disparando para 7,3milhões, segundo o último Censo divulgado.

Outro que também mudou de região foi o futuro publicitário Marcelo Vales Barbosa, de 18 anos, que em 2014 deixou a casa dos pais em Pindaí (BA), a 710 km de Salvador, capital do Estado, e 1.500 km do Oeste Paulista. Hoje no 3º semestre do curso de Publicidade e Propaganda, Barbosa diz ter escolhido a instituição não só pela nota obtida no Enem, como também pelas recomendações que teve do curso através da internet. “Lógico que eu gostaria de estar em uma universidade mais próxima da minha família, mas busquei não arriscar quanto à qualidade do ensino que eu receberia”, afirma.

Segundo o estudante, sua adaptação aconteceu de maneira natural, mas apenas duas coisas o fizeram ter dificuldade na chegada à cidade: pegar ônibus e o tempero da comida. “Pode parecer besta, mas pegar ônibus em minha cidade era raridade já que é uma cidade super pequena e aqui há muitas linhas que me deixavam muito confuso. Outro ponto que eu até hoje não me acostumei é a falta de tempero na comida. Tudo é muito fraco, tanto que quando vou à Bahia uma vez no semestre trago todo o tempero de lá”.

Quem nota a mudança de perfil dos estudantes ao longo dos últimos 30 anos em Presidente Prudente e procura de sua forma colaborar com os migrantes é Maria Pereira Alcântara, dona de um pensionato na cidade. Dona Maria, como é chamada, cede descontos de até 300 reais para os alunos que vêm à cidade devido ao programa. “Aparecem vários. Sei que eles estão aqui, em um lugar que nunca estiveram, por um sonho e muitos não têm condição de pagar acima de R$ 1 mil por mês para se manterem, então se houver quarto vago eu procuro fazer um desconto até que a situação melhore”.

Outro que se aventurou em Prudente foi Kaio Carvalho Cortez, de 24 anos, também estudante de Medicina, que saiu de Floriano (PI), cidade de 58 mil habitantes, no segundo semestre de 2014. A 2.300km de casa, o jovem que cursou e não concluiu a faculdade de Direito antes de entrar no curso da saúde, conta que sua escolha se deu devido à falta de chances de ingressar no curso em sua região, sendo assim, optou por Prudente apesar do receio pela mudança radical. “Eu nunca tinha saído do Nordeste, e mudar para tão longe, sem nenhum parente ou amigo na cidade, sabendo que posso só ver minha família uma vez por ano, e morar num lugar de pessoas culturalmente muito diferentes da minha região, foi bem difícil. Muito embora sejam muito receptivas as pessoas aqui, é sempre difícil se adaptar a uma realidade completamente diferente e sozinho”.

Cortez faz questão de ressaltar a importância do Prouni em sua vida. Ele lembra que além da bolsa, o programa tem obtido sucesso por também conceder um benefício aos alunos. “O Prouni foi e está sendo essencial. Foi o caminho que me levou à faculdade de medicina, meu grande sonho. Eu poder estudar numa faculdade particular, de qualidade e estrutura indiscutivelmente superior às públicas, completamente gratuito e ainda receber uma bolsa pra auxiliar nas despesas é, sem dúvida, a melhor opção”, conclui.

Atualmente, apenas a Universidade do Oeste Paulista (Unoeste) e a Faculdade de Presidente Prudente (Fapepe) aderem ao programa. No primeiro semestre de 2015, as universidades proporcionaram juntas um total de 2.045 bolsas.

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