O mundo segundo os estrangeiros

Culturas diferentes, raças, línguas e preferências que se contrastam e se completam. Nesta reportagem, contaremos histórias de pessoas que, independente da idade, não tiveram medo de se aventurar.

Por: Ana Luiza Barilli, Fernanda Magro, Luiz Gustavo Carvalho, Milena Mendes e Talita Silis

“A hora que vi que uma refeição mais elaborada seria um pedaço de carne, com batata amassada e legumes sem temperar, foi quando me toquei que estava aqui.”

“Lá é proíbido por lei que as escolas vendam comidas não saudáveis.”

“A maioria das pessoas é tão legal e amigável e eles aceitam qualquer pessoa.”

“Lá as pessoas são diferentes, mais chatinhas, não gostam muito de ajudar..”

Você seria capaz de identificar a quais países cada uma destas frases se refere? Elas são parte das histórias contadas por pessoas que se aventuraram a explorar o mundo. E você, faria um intercâmbio temporário de médio a longo prazo para um país de cultura totalmente diferente da tua? Que desafios você acha que enfrentaria? Existe idade para isso?

De lá pra cá

Mudar de cidade de uma hora pra outra e alterar hábitos que muitos estavam acostumados não é fácil. Levando em conta essas mudanças o famoso choque cultural acontece, e para quem pensa que as mudanças precisam ser muito grandiosas, se assustam como os pequenos detalhes fazem os jovens se sentirem diferentes. Presidente Prudente tem histórico em receber esses intercambiários.

Para o estudante dinamarquês Carl Jorgensen de 17 anos, o que mais o impactou foi a diferença entre a rotina escolar do Brasil e do país de onde veio. Segundo ele o horário é muito diferente: no Brasil as aulas começam mais cedo, geralmente das 7h às 12h, enquanto na Dinamarca o horário escolar se inicia às 8h e acaba às 15h. “Mas eu acabei gostando disso, você consegue ir para casa e almoçar lá, e então você está pronto para fazer mais coisas depois das 14h, o que na Dinamarca seria depois das 16h”, disse o estudante.

Além do horário ser diferente, o estudante estranhou a quantidade de pessoas em sala de aula. Na Dinamarca são geralmente 20 alunos por sala e na escola onde estuda aqui no Brasil é o dobro disso, com quase 45 alunos. As escolas dinamarquesas são rígidas com a alimentação dos alunos, já aqui a coisa é um pouco diferente . “Na Dinamarca é proíbido por lei que as escolas vendam comidas não saudáveis, enquanto no Brasil você pode comprar refrigerantes, salgadinhos e doces nos intervalos das aulas”, contou.

Carl conta que o clima aqui na cidade também o surpreendeu. “Eu sabia que seria quente, mas não saiba que chovia tanto aqui. Por exemplo, o Parque do Povo literalmente se transformou num rio duas semanas atrás”, observa. Ele diz ainda que existem inúmeras outras coisas diferentes e “a verdade é que é muito difícil não sofrer nenhum choque cultural quando você muda para o outro lado do mundo por um ano.”

Florenzia Rivero de 28 anos, é uma argentina portenha, ou seja, da cidade de Buenos Aires, que está vivendo a segunda temporada em Presidente Prudente. Ela conta que em 2011 veio em intercâmbio estudantil pela Unesp (Universidade Estadual Paulista) quando ainda cursava Engenharia Ambiental.

Ao final do programa, voltou para casa para concluir o curso, mas a vontade de retornar ao Brasil bateu mais forte. “Em janeiro de 2015 eu retornei a Prudente para morar permanentemente. Mas como ainda estou no processo para revalidar meu diploma e atuar na minha área, estou dando aula de espanhol numa rede de escolas de idioma e também tenho alunos particulares”, comentou Florenzia.

A argentina disse que “Uma das coisas que eu mais gostei no Brasil foi das pessoas, elas são muito receptivas. Se puderem ajudar, eles ajudam. Lá na Argentina as pessoas são diferentes, mais chatinhas, não gostam muito de ajudar. Não são tão carinhosas como as daqui”, afirmou. Ponto para o Brasil!

Miscigenação

Até a forma de o brasileiro se comportar causa um certo espanto positivo para os estrangeiros. Foi isso que aconteceu com Martín Cabrera de 18 anos, um americano de família mexicana, que assim como Carl está no Brasil fazendo o ensino médio. “Eu acho que o maior choque cultural para mim foram as pessoas aqui no Brasil. A maioria delas é tão legal e amigável e eles aceitam qualquer pessoa”, disse Martín.

O esforço e a receptividade do brasileiro chamaram bastante a atenção de Martín que se surpreendeu com a vontade de se comunicar com o visitante. “Algumas poucas pessoas que não sabem bem o inglês tentam ao máximo se comunicar comigo. Mas elas entendem também que eu não sou o melhor no português porque não é minha língua materna”, afirmou.

Em relação aos outros costumes, ele diz que se admirou com o quão parecidos são os mexicanos e os brasileiros. “Eu venho de uma família de pais mexicanos e algumas coisas que os brasileiros fazem aqui, minha família também faz, então eu me sinto um pouco em casa”, falou o americano.

Daqui pra lá

Uma agência de viagens de Presidente Prudente oferece inúmeros programas de intercâmbio para todas as idades, níveis de idioma e tempo de duração. A partir dos sete anos de idade é possível realizar uma viagem de estudos, mas o que ultimamente tem sido muito procurado são os intercâmbios sênior.

Com a possíbilidade de vivenciar algumas semanas no exterior e ainda por cima ganhar conhecimento em um novo idioma, pessoas acima de 60 anos se permitem viajar pelo mundo para aprender. O roteiro do intercâmbio oferecido  pela agência divide o dia dos estudantes em duas partes. Um período  do dia fica por conta das aulas de idioma que podem variar, enquanto o outro é destinado a passeios, excursões e atividades culturais.

Os intercambiários ficam hospedados em casa de família,  para a agência isso é uma forma deles terem um contato maior com a nova língua, com uma família estrangeira e sua cultura. Quem já vivenciou uma experiência parecida com essa foi Marcos Meirelles que viajou para o Canadá com mais de 40 anos e ficou no país por cinco meses. “Eu fiz intaercâmbio porque sempre quis aprender a língua inglesa. Fiquei em uma casa de família e foram bem receptivos comigo.”

E para quem acha que foi díficil ele afirma que não, que foi uma expêriencia muito boa. “Você aprende a se virar sozinho e começa a dar valor a coisas que até então passavam despercebidas. Eu recomendo esse desafio a todos que tenham disponibilidade”, diz.

São diversos os programas de intercâmbio cultural oferecidos ao redor do mundo. O Rotary Club é uma agência internacional presente em 219 países que, dentre as atividades, promove um dos mais clássicos e conhecidos programas interculturais: a troca de adolescentes na fase do ensino médio escolar entre famílias de diferentes culturas.

Essa experiência de choque cultural também acontece quando os brasileiros saem da nossa realidade. Um exemplo disso é a brasileira Caroline Coelho, de 22 anos, que está trabalhando de aupair nos Estados Unidos. O aupair é um programa que promove a imersão numa nova cultura, através do trabalho como babá para os filhos de uma família com quem mora, em troca de educação escolar.

Para Carol se adaptar a forma americana de pensar não foi fácil, além de ter toda sua rotina transformada ela viveu momentos tensos em sua nova casa. “No meu ponto de vista, e pelo que vivenciei aqui, americanos são preconceituosos com todo outro tipo de raça, é claro que isso não é regra, mas ao meu ver, três em cada cinco são”, afirmou a brasileira.

Um dos momentos mais tensos que Carol viveu desde que chegou em Chicago, foi quando estava no metrô com uma amiga e uma senhora as abordou por estarem falando em português, e quase as atacou só por serem estrangeiras. “A senhora se aproximou e disse: ‘Vocês acham que podem vir aqui e tirar nossos empregos, amigos e oportunidades e nada acontecer com vocês? É por isso que matamos estrangeiros, eles tomam nossas vidas!”, contou.      

Mas nem tudo é difícil nesta vida de mudança, viu! Como uma amante do turismo, Carol disse: “Uma coisa que AMO nos Estados Unidos é a possibilidade de viajar sem muita grana! Uma road trip no Brasil não sai menos de 1, 2 mil reais. Aqui, visitei quatro estados em nove dias e gastei 600 dólares COM TUDO!” Vale lembrar que, quando você mora por longo tempo em outro país, não se deve converter gastos para a moeda do país natal se você ganha em dólar, conta em dólar.

Conhecidos como a terra das redes fast-food, os Estados Unidos levam a característica da pressa em se fazer tudo, inclusive refeições. “A hora que vi que uma refeição mais elaborada seria um pedaço de carne, com batata amassada e legumes sem temperar, foi quando me toquei que estava aqui”, comentou.

Para quem gosta de cozinhar, encontrar ingredientes que costumavam usar em casa ou mesmo fazer uma receita nacional pode causar estranheza. “Quando fiz strogonoff de frango para o jantar, eu fui recebida com muita alegria por ter feito um jantar chique”, declarou Carol.

Apesar das diferenças, todos concordam que o intercâmbio, independente da idade ou do tipo de programa, é uma grande experiência. Sair da sua zona de conforto para se aventurar em outra cultura e estar disposto a aprender com ela traz grandes benefícios que todos levarão para o resto da vida.

Por isso, Carl, o dinamarquês, conclui: “Basicamente tudo vem como um choque, mesmo que você tente se preparar, mas ainda assim é uma experiência maravilhosa”.

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