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Além da caneta emagrecedora


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Nos últimos anos, o tratamento da obesidade passou por uma transformação importante. As popularmente chamadas “canetas emagrecedoras” ganharam espaço nos consultórios, nas redes sociais e nas conversas cotidianas. Medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro tornaram-se conhecidos para além do ambiente médico, impulsionados pelos resultados expressivos de perda de peso e pelas novas possibilidades terapêuticas.

Esse avanço merece ser reconhecido. A obesidade é uma doença complexa, influenciada por fatores biológicos, ambientais, comportamentais e sociais. Reduzi-la à falta de disciplina ou força de vontade é equivocado e ignora mecanismos que regulam a fome, a saciedade e o gasto energético. Nesse contexto, esses medicamentos representam uma ferramenta valiosa quando utilizados com indicação e acompanhamento adequados.

Entretanto, diante de resultados cada vez mais rápidos e visíveis na balança, uma questão merece atenção: perder peso é suficiente? Durante o emagrecimento, o organismo não perde exclusivamente gordura. Parte do peso eliminado pode vir também da massa muscular, especialmente quando há redução acentuada da ingestão alimentar, consumo insuficiente de proteínas e ausência de estímulo muscular adequado. Náuseas, redução do apetite e outros sintomas do tratamento também podem dificultar uma alimentação nutricionalmente adequada.

Quando o apetite diminui, comer menos não significa, necessariamente, comer melhor. Quanto menor a quantidade consumida, maior deve ser a atenção à qualidade da alimentação. O aporte adequado de proteínas, vitaminas, minerais e fibras é importante para que a perda de peso não comprometa outros aspectos da saúde. O desafio não é apenas reduzir a ingestão, mas garantir que as necessidades nutricionais sejam atendidas.

Se as possibilidades de tratamento evoluíram, nossa compreensão sobre o que representa um bom resultado também precisa evoluir. O número apresentado pela balança é importante, mas não conta toda a história. Preservar a massa muscular, manter a qualidade da alimentação, melhorar parâmetros metabólicos, praticar atividade física e sustentar os resultados ao longo do tempo também fazem parte dessa avaliação.

Nesse cenário, o acompanhamento multiprofissional ganha relevância. A medicação pode modificar a fome e a saciedade, mas não substitui a construção de hábitos alimentares, a adequação nutricional ou a prática regular de atividade física. Esses cuidados não competem com o tratamento medicamentoso; ao contrário, tornam-no mais completo.

As novas terapias representam um avanço importante e podem transformar a vida de muitas pessoas. O desafio agora é não permitir que a velocidade dos resultados reduza novamente a obesidade a um único número. Em uma era de medicamentos cada vez mais eficazes, talvez a pergunta mais relevante não seja apenas quanto peso é possível perder, mas como estamos perdendo esse peso e que saúde estamos construindo durante esse processo.

Bianca Depieri Balmant é nutricionista, doutora pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e docente da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste)

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