Documentário reacende debate sobre saúde mental e exclusão
Às vésperas do Dia da Luta Antimanicomial, professor da Unoeste Guarujá analisa como pobreza, violência e abandono atravessam casos de sofrimento psíquico
O documentário Estamira, lançado em 2004 e ainda atual nas discussões sobre saúde mental no Brasil, volta a ganhar relevância às vésperas do Dia Nacional da Luta Antimanicomial, celebrado em 18 de maio.
A obra retrata a vida de Estamira, mulher que trabalhava como catadora no lixão de Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, convivendo com sintomas psicóticos em meio à extrema vulnerabilidade social.
Para o professor da Unoeste Guarujá e psiquiatra Laerte Romualdo, o filme provoca reflexões profundas sobre os limites da assistência em saúde mental e sobre como fatores sociais podem influenciar o desenvolvimento de transtornos psiquiátricos.
Segundo o especialista, existe uma discussão importante na psiquiatria sobre até que ponto quadros psicóticos surgem apenas por predisposição biológica ou dialogam diretamente com a trajetória de vida da pessoa.
“É muito difícil separar o transtorno mental do contexto de vida dela. Estamos falando de uma mulher periférica, que sofreu violência sexual na infância, viveu situações extremas de pobreza e precisou trabalhar em um dos maiores lixões da América Latina para sobreviver”, explica.
Sofrimento psíquico
Ao longo do documentário, Estamira relata episódios de abuso sexual, exploração e exclusão social. Para a família, parte dos delírios religiosos apresentados por ela estaria ligada aos traumas vividos ainda na infância.
De acordo com Laerte Romualdo, embora transtornos como esquizofrenia e bipolaridade tenham predisposição genética, esse fator sozinho não explica o adoecimento mental.
“A predisposição genética não é suficiente para o desenvolvimento do transtorno. Existe relação com violência, miséria, sofrimento urbano e vulnerabilidade social”, afirma.
Reforma psiquiátrica
Outro ponto levantado pelo documentário é o impacto da reforma psiquiátrica brasileira e a substituição dos antigos hospitais psiquiátricos por modelos de atendimento comunitário, como os Centros de Atenção Psicossocial (Caps).
No caso de Estamira, a própria filha resistia à possibilidade de internação, marcada pelo trauma de ver a avó internada no passado. Além disso, havia dificuldade em aderir ao tratamento medicamentoso, já que a paciente interpretava os remédios dentro de um contexto delirante.
“É um desafio enorme para os familiares e também para a rede de saúde. Casos assim exigem acompanhamento contínuo e um trabalho intersetorial, que envolva saúde, assistência social e suporte familiar”, pontua o professor.
Segundo ele, a reforma psiquiátrica trouxe avanços importantes ao priorizar o cuidado humanizado e a reinserção social, mas ainda enfrenta dificuldades estruturais, principalmente em situações complexas e de extrema vulnerabilidade.
“O que a reforma preconiza hoje são leitos psiquiátricos dentro de hospitais gerais, não mais hospitais psiquiátricos isolados. Uma internação temporária para estabilização, seguida de acompanhamento pelo Caps, poderia ter sido uma estratégia”, explica.
Notícia disponibilizada pela Assessoria de Imprensa da Unoeste