Envelhecer com dentes
Durante muito tempo, envelhecer e perder os dentes pareciam fazer parte da mesma história e a dentadura chegou a ser vista quase como uma consequência natural da idade. Mas essa realidade está mudando.
O Brasil está envelhecendo rapidamente. Segundo o Censo 2022 do IBGE, mais de 32 milhões de brasileiros têm 60 anos ou mais. Ao mesmo tempo, pesquisas nacionais de saúde bucal mostram que hoje mais pessoas chegam à velhice preservando grande parte de seus dentes naturais.
Essa é uma conquista importante. Mas manter os dentes por mais tempo também significa repensar o cuidado. Com o envelhecimento, algumas tarefas simples podem se tornar mais difíceis. Alterações nas mãos, redução da força, tremores, dificuldades de coordenação, problemas de visão ou alterações cognitivas podem comprometer a escovação e o uso do fio dental. Em algumas situações, a pessoa passa a depender da ajuda de um familiar ou cuidador.
Existem recursos simples para facilitar a higiene bucal: escovas com cabos mais espessos podem melhorar a firmeza da pegada ou escovas elétricas podem ajudar pessoas com dificuldade de realizar movimentos repetitivos. Quando a autonomia diminui, familiares e cuidadores precisam ser orientados sobre como auxiliar na higiene de maneira segura.
As próteses também exigem cuidados. Próteses removíveis precisam ser higienizadas diariamente e avaliadas periodicamente. Uma prótese que machuca, fica solta ou dificulta a mastigação não deve ser considerada algo “normal da idade”. Da mesma forma, quem utiliza próteses fixas, implantes ou ainda mantém dentes naturais continua precisando de acompanhamento odontológico.
Outro ponto importante é que alguns medicamentos e condições de saúde podem reduzir a quantidade de saliva, dificultar a higiene ou aumentar a necessidade de atenção à boca. Por isso, a saúde bucal não deve ser lembrada apenas quando aparece dor.
Familiares e cuidadores também podem observar alguns sinais: dificuldade para mastigar, mudança na alimentação, mau hálito persistente, sangramento, feridas, dentes quebrados, próteses mal adaptadas ou resistência repentina à alimentação e à higiene.
Cuidar da boca faz parte do cuidado integral com a pessoa idosa. Está relacionado ao conforto, à alimentação, à comunicação, à autoestima e à qualidade de vida.
Essa mudança no perfil da população também exige uma transformação na própria Odontologia. O dentista precisa ir além do procedimento técnico e precisa compreender condições de saúde, medicamentos, limitações funcionais, capacidade de autocuidado, necessidade de apoio familiar e possibilidades reais de manutenção do tratamento ao longo do tempo.
Estamos vivendo mais e preservando mais dentes ao longo da vida. Esse avanço também nos convida a repensar o cuidado: manter a saúde bucal durante o envelhecimento exige atenção contínua, adaptações e profissionais preparados para compreender cada pessoa para além da idade.
Graziela Avila Galhano Logar é cirurgiã-dentista, professora de Prótese Dentária do curso de Odontologia da Unoeste, com atuação clínica no atendimento de pessoas idosas.