CAMPUS:
0800 771 5533
Área do Egresso Aprender Unoeste
Você está em: Acontece

Mesa de professor


email facebook twitter whatsapp Linkedin

Seis cadeiras de madeira, com assentos estofados e encostos de juta. Uma mesa de madeira maciça com uma orquídea amarela em um vaso de cerâmica. Essa é a mesa da minha sala. Foi carinhosamente escolhida para combinar com os outros móveis e paga com muito suor, em várias prestações.

É engraçado como ela acompanha minha vida de professor. No começo do semestre, uso uma das cadeiras para repousar a bolsa com o notebook. Semanas depois, mouse, teclado e pen drives vão ocupando espaço sobre a mesa. No fim do semestre, os papéis se multiplicam entre canetas vermelhas de várias pontas. Os pacotes de provas se sobrepõem. Cadê a orquídea?

Entre tantos papéis, algumas lembranças chegam antes dos números. Uma delas começa com uma frase que ouvi no meu primeiro dia como professor de estágio, dentro de um hospital lotado:

— Professor, eu não consigo conversar com pessoas.

A frase me pegou de surpresa. Em poucos segundos, vieram várias respostas à cabeça. O que dizer àquele estudante? Resolvi acolher e orientá-lo a começar com um bom-dia, apresentar-se e perguntar o que o paciente estava sentindo.

Ao fim do dia, a frase ainda me acompanhava. Minha primeira reação havia sido culpar o aluno. Como alguém escolhe trabalhar na saúde se não consegue conversar com pessoas? Depois, ocorreu-me outra pergunta: o que eu esperava que ele já soubesse, sem verificar se tinha aprendido?

Talvez faltasse orientação, prática ou confiança. Eu ainda não sabia. Afinal, até onde ia minha responsabilidade como professor?

É fácil concordar que ensinar vai além da sala de aula e da teoria. Mais difícil é perceber o que isso exige de nós quando um estudante pede ajuda. Eu poderia ter dito todas as bobeiras que pensei. Talvez aliviasse minha impaciência, mas não resolveria o problema. Poderia até aumentá-lo.

Escuto muito que professor bom é aquele que pega no pé, que prepara o estudante para uma vida difícil. Cobrar preparo faz parte do trabalho. O problema começa quando a dificuldade do estudante vira motivo de constrangimento. Naquele hospital, eu precisava ajudá-lo a conversar com um paciente.

— Eu não desisti por sua causa.

Foi o que aquele estudante me disse no fim do semestre. Junto da frase, entregou metade de um chocolate. A outra metade ele tinha comido no caminho, de ansiedade.

Os presentes dos estudantes também encontram lugar na memória: uma bala, uma carta ou até uma flor de plástico empoeirada, com toda a aparência de ter sido arrancada de alguma decoração de casa de vó. Daquele estudante, ficaram a frase, a lembrança e o chocolate pela metade.

A orquídea volta a aparecer quando guardo as provas. A pergunta sobre os limites de ser professor continua na mesa.

Fernando Alvieri é biomédico e professor da Unoeste.

Alguma mensagem