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O que nossos desenhos de infância ainda têm a nos ensinar?


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Quando crianças, nossos primeiros desenhos quase sempre incluem a natureza. Árvores de copas arredondadas, flores coloridas, frutos apetitosos e pássaros no céu. Mesmo com traços simples, esses desenhos dizem muito. Revelam uma percepção intuitiva de que a relação entre o ser humano e o meio ambiente está ligada ao bem-estar. Alguém poderia dizer que a natureza estava ali apenas para “embelezar” os desenhos. De fato, eles ficavam mais bonitos. Mas havia algo além disso, algo que hoje começamos a reconhecer como essencial.

Com o tempo, essa relação muda e, muitas vezes, se perde. À medida que crescemos, a cidade passa a estar mais presente na nossa percepção. As árvores dão lugar aos prédios, os quintais com pomares desaparecem e os jardins são substituídos por áreas pavimentadas. As ruas apresentam um número menor de árvores, sem falar na diminuição da diversidade de espécies. 

Uma caminhada com mais atenção revela que aquilo que desenhávamos na infância nem sempre corresponde à paisagem urbana que é construída. Em muitos casos, o contato com a natureza passou a ocorrer em casas ou apartamentos, por meio de vasos e de plantas de pequeno porte. Esse aspecto traz consequências quando pensamos a cidade em escala ambiental, diante da redução das áreas para escoamento da água das chuvas, do aumento das temperaturas e dos eventos climáticos extremos.

Na infância, a conexão com a natureza era espontânea e lúdica. Estava nos desenhos, nas brincadeiras e em outras formas de expressão do dia a dia. Muitas vezes, ela era estimulada pelas atividades escolares. Diante disso, surge uma pergunta inevitável: por que, na vida adulta, essa relação se enfraquece? Por que deixamos de pensar na natureza no nosso cotidiano?

Com o tempo, fomos aprendendo a pensar a cidade como sinônimo de progresso e a natureza como algo externo a ela. Muitas vezes, esse pensamento só se é questionado quando viajamos para lugares onde a paisagem natural predomina, despertando admiração e encantamento. Ou, em momentos de ondas de calor, chuvas intensas, inundações, vendavais e queimadas, cada vez mais frequentes e que afetam, sobretudo, as populações em situação de maior vulnerabilidade social.

Temos visto experiências no Brasil e em outros países demonstrando que a integração entre natureza e cidade promove benefícios que vão além da preservação ambiental. Cidades que investiram em áreas verdes, arborização urbana, espaços públicos e infraestrutura verde apresentam impactos positivos na saúde física, cognitiva, emocional e mental das pessoas, além de favorecerem a convivência social e a qualidade de vida. 

Estudos indicam que o contato com a natureza reduz o estresse, melhora a atenção, fortalece os vínculos sociais e promove o bem-estar. Talvez, sem saber, já compreendêssemos isso quando crianças, ao desenhar árvores entre casas, prédios e ruas. A natureza não estava ali apenas para tornar o desenho mais bonito; ela expressava uma compreensão intuitiva de que cidade e natureza fazem mais sentido juntas.

Reaproximar a natureza do cotidiano urbano não é apenas uma questão estética ou ambiental. É um desafio social, econômico e cultural, que exige repensar nosso modo de vida e, sobretudo, o futuro que estamos construindo. Um futuro que não se aproxima da natureza apenas por meio de viagens ocasionais de contemplação, mas por meio de uma convivência cotidiana capaz de minimizar os impactos dos desastres ambientais. Significa, então, superar antagonismos e assumir um compromisso social com o meio ambiente.

Esse texto não pretende ser um exercício de nostalgia. É, antes, um convite à reflexão. Talvez um dos nossos maiores aprendizados esteja justamente naquele olhar infantil que, antes de qualquer discurso ambiental, já percebia: não existe cidade saudável sem natureza presente. Recuperar essa sensibilidade não é um gesto simbólico, do lápis na mão e do papel em branco, mas uma escolha para as cidades que queremos habitar. Que possamos construir cidades como as que imaginávamos e desenhávamos, cheias de natureza.

Victor Martins de Aguiar é arquiteto e urbanista, mestre em História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo, e professor dos cursos de Arquitetura e Urbanismo, Design de Interiores e Gestão Hospitalar da Unoeste.

 

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