Dor abdominal pode ter causas diferentes por idade
Especialista explica como o aparelho digestivo muda ao longo da vida e quais sinais não devem ser tratados apenas como consequências da idade
Dor abdominal, refluxo e constipação são sintomas que podem aparecer em diferentes fases da vida. Embora sejam manifestações conhecidas, as causas por trás desses problemas podem variar conforme a idade. Em crianças e idosos, o aparelho digestivo apresenta particularidades que influenciam tanto a ocorrência de determinadas doenças quanto a forma como elas devem ser investigadas.
Segundo o gastroenterologista e professor da Faculdade de Medicina da Unoeste, José Amuratti, na infância o sistema digestivo ainda está em processo de crescimento e maturação. Essa fase envolve mudanças na motilidade intestinal, na microbiota e no sistema imunológico. Por isso, alterações gastrointestinais podem ter impacto direto no crescimento, no ganho de peso e no desenvolvimento da criança.
No envelhecimento, o aparelho digestivo também passa por mudanças fisiológicas e pode sofrer influência de doenças crônicas e do uso de medicamentos. Esse conjunto de fatores contribui para uma redução da chamada reserva fisiológica, o que pode modificar a maneira como o organismo responde a determinadas doenças.
Os problemas gastrointestinais mudam conforme a idade
Entre as crianças, alguns dos problemas gastrointestinais mais comuns são constipação intestinal, refluxo gastroesofágico e gastroenterites. Também podem ocorrer condições como intolerâncias alimentares e doença celíaca, que exigem acompanhamento adequado, especialmente quando há repercussões sobre o crescimento e o desenvolvimento.
Nos idosos, por outro lado, ganham destaque problemas como disfagia, que é a dificuldade para engolir, doença do refluxo, constipação e incontinência fecal. Também são mais frequentes alterações como diverticulose e doença diverticular do cólon.
Essa diferença ajuda a explicar por que um mesmo sintoma não deve ser analisado de forma isolada. A idade, o histórico do paciente e os demais sinais apresentados são informações importantes para orientar a investigação médica.
Um mesmo sintoma pode ter causas diferentes
A constipação intestinal, por exemplo, pode estar relacionada a diferentes condições e, dependendo do quadro, exigir a investigação de causas específicas. O médico considera informações como alimentação, hábitos intestinais, histórico clínico e outros sintomas apresentados pelo paciente.
Em uma pessoa idosa, uma dor abdominal pode levar o profissional a investigar possibilidades como doença diverticular, alterações na vesícula biliar ou no pâncreas e problemas de vascularização do intestino. Também podem ser consideradas outras condições, inclusive neoplasias, conforme o quadro clínico.
O refluxo também apresenta particularidades. Em bebês, a regurgitação pode ser fisiológica, enquanto sintomas semelhantes em adultos e idosos precisam ser avaliados considerando outras possíveis alterações do aparelho digestivo.
Quais sinais exigem atenção?
O envelhecimento provoca mudanças no organismo, mas isso não significa que todo sintoma apresentado por uma pessoa idosa deva ser considerado uma consequência natural da idade. Para Amuratti, essa é uma ideia que precisa ser combatida na prática clínica, pois pode atrasar a investigação e, consequentemente, o tratamento.
Perda de peso involuntária, dificuldade para engolir, sangramento digestivo, vômitos e icterícia, caracterizada pela coloração amarelada da pele e dos olhos, são alguns dos sinais que merecem atenção e avaliação médica.
A presença desses sintomas não significa, necessariamente, que exista uma doença grave. No entanto, eles precisam ser investigados para que o profissional possa identificar suas causas e definir a conduta adequada.
Conhecimento ajuda a chegar ao diagnóstico
Reconhecer as diferenças entre as faixas etárias é parte importante da formação dos profissionais de saúde. Conhecer as doenças mais frequentes em cada período da vida oferece pistas para a investigação clínica, sem substituir a avaliação individual de cada paciente.
“Não temos uma coisa chamada bola de cristal. A nossa bola de cristal é chamada de conhecimento, estudo e ciência”, destaca o professor.
Segundo ele, a análise da história do paciente e das condições mais comuns em cada faixa etária pode contribuir para um diagnóstico mais rápido e preciso e para o início mais breve do tratamento.
A abordagem também evidencia a importância de desenvolver, ainda durante a formação médica, a capacidade de relacionar o conhecimento científico às características de cada paciente. Afinal, sintomas semelhantes podem exigir diferentes hipóteses diagnósticas conforme a fase da vida.
Liga Acadêmica de Gastroenterologia inicia atividades no Guarujá
Essa discussão foi escolhida para a palestra inaugural da Liga Acadêmica de Gastroenterologia da Medicina Unoeste, campus Guarujá. O encontro marca o início das atividades da Liga e terá como tema as diferenças do aparelho digestivo e das doenças gastrointestinais em crianças e idosos, assunto abordado por Amuratti.
Para o especialista, discutir essas diferenças durante a formação acadêmica contribui para que os estudantes desenvolvam um olhar mais atento às particularidades de cada paciente. Mais do que acumular informações, a proposta é transformar o conhecimento em vivência e contribuir para uma relação médico-paciente mais qualificada.
A escolha do tema também reforça a importância de compreender que a medicina não se resume ao acesso à informação. Em um cenário no qual o conhecimento está disponível rapidamente por meio de computadores e celulares, o diferencial está na capacidade de interpretar e aplicar esse conhecimento na prática.
A síntese dessa abordagem está em uma frase destacada pelo especialista durante a entrevista: “Na criança, a gente precisa proteger o futuro; no idoso, a gente precisa preservar a autonomia dele e a qualidade de vida.”
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Serviço :
Palestra inaugural da Liga Acadêmica de Gastroenterologia
Data: quinta-feira, 20 de agosto
Palestrante: Dr. José Amuratti
Local: Unoeste Guarujá
Inscrições e matrículas: realizadas no momento da palestra inaugural.
Notícia disponibilizada pela Assessoria de Imprensa da Unoeste