Desigualdades regionais têm forte impacto sobre hanseníase
Constatação se sobressai em levantamento de dados das cinco regiões brasileiras sobre a implementação da poliquimioterapia única
Mediante levantamento de dados nacionais sobre indicadores clínicos e epidemiológicos da hanseníase, considerando a implementação do esquema terapêutico com a Poliquimioterapia Única (PQT-U), estudo científico oferece importante contribuição; em especial no campo de políticas públicas para a saúde, considerando a gratuidade pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Maior impacto está nas desigualdades regionais.
São vários problemas sobre atenção à doença que coloca o Brasil em 2º lugar no ranking de casos novos por ano, sendo o 1º lugar da Índia, respectivamente com 22,1 mil e 100 mil, dos 200 mil no mundo; conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS). O estudo surgiu da inquietação do médico Douglas Guazi, com dez anos de carreira, depois de ter sido frei, agente comunitário de saúde e auxiliar de enfermagem.
A PQT-U associa três medicamentos antimicrobianos: rifampicina, dapsona e clofazimina. Sua utilização para tratamento da hanseníase foi recomendada em 1981 pela OMS. Os dados para o estudo ecológico (pesquisa observacional que analisa populações ou grupos de pessoas em vez de indivíduos) nas cinco regiões do Brasil. Os dados foram buscados no Sistema de Informação e Agravo de Notificações (Sinan).
Antes e depois da pandemia
Junto o sistema do Ministério da Educação, que monitora e mapeia doenças de notificação compulsória no país, foram levantados dados antes (2015 a 2019) e pós-pandemia do coronavírus (2022 a 2025). Assim, possibilitando as discussões em dois cenários: antes e depois da implementação no Brasil, que ocorreu em 2021. Na comparação regional, um dado, no mínimo, curioso está relacionado ao centro-oeste.
Nessa região, o paciente precisa percorrer em média 72 km para obter atendimento médico, considerando os serviços de baixa a média complexidade e conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Um complicador na busca de serviços médicos. Outro complicador está relacionado ao tempo de tratamento e a desistência do paciente, que ocorre em diferentes momentos do percurso.
O tratamento da hanseníase paucibacilar (PB – poucos bacilos) tem a duração de seis meses, enquanto o multibacilar (MB) dura 12 meses e pode ser prolongado para 18. Estas e outras variáveis, incluindo indicadores clínicos e de tratamento, permearam a pesquisa conduzida pelo médico clínico geral que iniciou a defesa contando que a hanseníase surgiu 4 mil anos antes de Cristo. Era conhecida como lepra.
Ajuda à comunidade
Durante a defesa pública de sua dissertação no Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde, na manhã desta quarta-feira (23) no campus 2 da Unoste em Presidente Prudente, disse que a intenção foi voltada em produzir pesquisa capaz de ajudar a comunidade, com algo mais palpável. Condição que foi pactuada com a sua orientadora, professora doutora Marilda Aparecida Milanez Morgado Abreu.
A escolha sobre a hanseníase recaiu sobre o fato de ser uma doença tropical negligenciada, para a qual o autor do estudo defende diagnóstico precoce, classificação operacional adequada, tratamento oportuno e acompanhamento clínico; como elementos essenciais para interromper a transmissão e prevenir incapacidades. Isso seria ideal, mas adversidades passam diferentes fatores.
Conforme exposto pelo autor do estudo, isoladamente o esquema terapêutico PQT-U não elimina os fatores que interferem no tratamento que são associados as condições de moradia, vulnerabilidade econômica, contexto territorial, acesso aos serviços e acompanhamento longitudinal, relacionado à ausência dos profissionais para manter o vínculo e monitorar o tratamento.
Ações de controle
“A uniformização da composição da poliquimioterapia pode reduzir problemas relacionados à classificação terapêutica e simplificar os aspectos logísticos da dispensação, mas não substitui as demais ações necessárias ao controle da hanseníase”, apontou para dizer que os desfechos da doença não se limitam ao regime terapêutico; pois inclui os impactos das desigualdades regionais dos serviços de saúde.
O exemplo mais latente, após a implantação do PQT-U, esteve relacionado ao centro-oeste brasileiro (região mais vulnerável e assistência médica), onde a positividade baciloscopica (encontro de bacilos) e os episódios reacionais (inflamação aguda e súbita que interrompe a evolução crônica da hanseníase) diminuíram, mas ocorreram redução na cura e elevação na incapacidade e casos multibacilares.
A cura que era de 77,5% caiu para 64,5%. A incapacidade grau 2 foi elevada de 7,6% para 14,1%. Os casos multibacilares aumentaram de 87,8% para 94,3%. Porém, conforme expôs o autor do estudo, não significam, necessariamente, resultados adversos da PQT-U, pois devem ser interpretados no contexto das mudanças na detecção da hanseníase, dos efeitos da Covid-19 e das desigualdades regionais.
Título de Mestre
A banca avaliadora foi composta pelas professoras doutoras Eliana Perisi Lordelo, como membro interno, e Luciana Sane Ota, como membro externo, convidada junto as Faculdades de Dracena (Unifadra). O trabalho e apresentação foram elogiados. Também foram feitos apontamentos, apropriados à produção de artigos científicos. Douglas Guazzi foi aprovado para receber o título de Mestre em Ciências da Saúde.
Notícia disponibilizada pela Assessoria de Imprensa da Unoeste