Déjà-vu desperta curiosidade sobre funcionamento do cérebro
Já teve a impressão de viver novamente uma cena inédita? Professor explica como o cérebro produz essa sensação e o que a ciência sabe sobre o fenômeno
Você entra em um lugar desconhecido, começa uma conversa ou presencia uma cena e, de repente, surge uma impressão difícil de explicar: parece que tudo aquilo já aconteceu antes. Por alguns segundos, a sensação é tão convincente que você tenta lembrar quando viveu aquele momento. Essa experiência tem nome: déjà-vu.
A expressão vem do francês e significa “já visto”. Na terminologia médica, o déjà-vu é tradicionalmente classificado como um tipo de paramnésia, termo que abrange fenômenos relacionados a distorções da memória e do reconhecimento. Embora desperte curiosidade e até inspire interpretações místicas, o fenômeno também é objeto de estudo de áreas da Medicina como a Neurociências. A explicação passa pelo funcionamento da memória e pela maneira como o cérebro reconhece situações e experiências.
O cérebro durante um déjà-vu
Segundo o professor de Psiquiatria e Saúde Mental da Unoeste Laerte Romualdo Santos, o déjà-vu é uma experiência relacionada principalmente aos sistemas cerebrais envolvidos na memória e no reconhecimento. O fenômeno ocorre quando uma situação parece familiar, mesmo sem que a pessoa consiga identificar uma lembrança que justifique essa impressão.
“De forma simplificada, é como se o cérebro produzisse uma sensação de familiaridade diante de uma situação que, conscientemente, sabemos que é nova”, explica o professor.
Estruturas do lobo temporal medial participam desse processo e têm papel importante na formação e na recuperação das memórias. No entanto, ainda não existe uma explicação única e definitiva para o déjà-vu.
A sensação pode ser tão intensa que parece uma lembrança real. Mas existe uma diferença importante entre reconhecer algo como familiar e conseguir recuperar uma memória específica.
Situação já vivida
Memória e reconhecimento estão relacionados, mas não são a mesma coisa. É possível sentir familiaridade com uma cena sem conseguir identificar quando ou onde tivemos contato com algo semelhante.
O professor explica que essa diferença ajuda a compreender o fenômeno: “no déjà-vu, a sensação de familiaridade aparece, mas não é acompanhada pela recuperação de uma lembrança correspondente”.
Uma situação inédita pode compartilhar características com experiências anteriores, como a disposição dos objetos, o ambiente, uma sequência de acontecimentos ou até aspectos emocionais. Essas semelhanças podem contribuir para a impressão de que aquele momento já foi vivido, mesmo sem uma lembrança específica.
Por isso, o fenômeno é interessante para a ciência. Ele mostra que a memória não funciona simplesmente como uma gravação do passado. A experiência de lembrar e reconhecer depende da interação entre diferentes processos cerebrais.
Déjà-vu não é o que dizem
Apesar de a sensação parecer um pequeno erro na percepção da realidade, não é correto afirmar que o cérebro esteja necessariamente apresentando uma falha.
Uma das hipóteses investigadas é a de que ocorra um desencontro momentâneo entre os mecanismos responsáveis pela familiaridade e aqueles que permitem recuperar informações de uma experiência anterior. É como se a sensação de reconhecimento surgisse sem que a memória correspondente fosse encontrada.
O professor ressalta que o fenômeno também pode acontecer em pessoas neurologicamente saudáveis. Portanto, ter déjà-vu ocasionalmente não significa, por si só, que exista algum problema de memória.
O tema, inclusive, ultrapassa o campo científico e aparece em manifestações culturais e religiosas. Em algumas tradições que acreditam na reencarnação, a experiência é interpretada como uma possível lembrança de vidas passadas. Já no filme Matrix, de 1999, o déjà-vu é apresentado como uma “falha na Matrix”, dentro da realidade simulada da história. Essas interpretações, porém, não constituem evidências científicas sobre a origem do fenômeno.
Quando merece atenção
Ter a sensação de já ter vivido uma situação é relativamente comum. Segundo o docente, uma revisão sistemática que reuniu 46 estudos estimou que aproximadamente 74% das pessoas saudáveis já experimentaram déjà-vu.
Na maioria dos casos, episódios ocasionais não são motivo para preocupação. Entretanto, o contexto merece atenção quando as experiências se tornam muito frequentes, repetitivas ou aparecem acompanhadas de outros sintomas.
O déjà-vu pode ocorrer como parte de crises epilépticas focais, especialmente nas epilepsias do lobo temporal. Nessas situações, a sensação pode vir acompanhada de medo súbito, alterações na percepção ou na consciência e outros sinais neurológicos.
“Então, não é a simples presença do déjà-vu que indica uma doença neurológica. O que importa é o contexto em que ele acontece, sua frequência, duração, intensidade e a presença de outros sintomas associados”, esclarece o professor.
Assim, aquela impressão inesperada de já conhecer uma cena pode ser apenas uma experiência passageira do funcionamento da mente. E, embora a ciência ainda investigue como todos esses mecanismos se combinam, o déjà-vu mostra como o cérebro pode produzir sensações surpreendentes sobre a nossa própria experiência.
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Para saber mais sobre o organismo, confira também outras curiosidades do corpo humano.
Notícia disponibilizada pela Assessoria de Imprensa da Unoeste