Simpósio debate caminhos de proteção à mulher
Evento em Jaú aborda obstáculos na busca por ajuda e a importância de serviços preparados para acolher sem julgamentos e garantir continuidade do cuidado
Quando uma mulher em situação de violência procura ajuda, a resposta que recebe pode facilitar o acesso à proteção ou criar novos obstáculos. Falta de orientação, julgamentos e necessidade de repetir experiências dolorosas em diferentes serviços são algumas das dificuldades que podem prolongar a busca por apoio. Esse percurso, conhecido como “rota crítica”, foi um dos aspectos discutidos no Simpósio Violência contra a Mulher, que ocorreu nesta segunda-feira (19), no campus da Unoeste em Jaú.
O evento propôs um diálogo entre Direito, Medicina e Psicologia sobre direitos, atendimento ginecológico humanizado e impactos psicológicos da violência. A programação foi voltada principalmente a estudantes de Medicina e Psicologia, de todos os períodos, e também aberta ao público externo.
Para a professora Ana Paula Gasparotto Paleari, a preparação dos futuros profissionais exige compreender os aspectos técnicos do atendimento, mas também as condições em que cada mulher vive a violência e consegue buscar ajuda. “É preciso compreender sua experiência, respeitar seu tempo e sua autonomia e, ao mesmo tempo, assumir a responsabilidade profissional pelo cuidado e pela proteção”, afirma.
Quando buscar ajuda se torna outro desafio
Medo de novas agressões, ameaças aos filhos, dependência financeira, isolamento, vergonha e sentimento de culpa estão entre os fatores que podem dificultar a procura por apoio. A situação pode ser agravada quando a violência é naturalizada no ambiente familiar ou social, tornando mais difícil reconhecer o problema e identificar caminhos para enfrentá-lo.
Também há barreiras no atendimento. Orientações pouco claras, burocracia, falta de articulação entre instituições e abordagens que responsabilizam a vítima podem comprometer a continuidade da busca por proteção. Ana Paula explica que a “rota crítica” considera tanto as condições de vida da mulher quanto as respostas recebidas de pessoas próximas e dos serviços procurados. Cada contato pode abrir possibilidades ou acrescentar dificuldades ao percurso.
A professora ilustra esse cenário com o caso hipotético de uma mulher que relata a violência em uma unidade de saúde, mas recebe apenas a orientação de procurar outro serviço, sem informações suficientes para chegar até ele. Ao conseguir atendimento, precisa repetir sua história e ainda ouve que deveria tentar preservar o casamento. “Essa mulher buscou ajuda, mas encontrou respostas que dificultaram sua proteção”, observa.
Informação precisa vir acompanhada de acolhimento
Conhecer os direitos e os serviços disponíveis é importante para que as mulheres identifiquem alternativas e saibam onde procurar apoio. O Ligue 180 é um dos canais que oferecem orientações sobre direitos e serviços da rede de atendimento.
“Queremos que os estudantes reflitam também sobre os próprios pressupostos, para que ideias pré-estabelecidas sobre como uma mulher deveria reagir não dificultem o encontro e a busca por ajuda”, afirma.
A abordagem também considera que cada mulher tem uma história, vínculos e condições próprias para tomar decisões. Por isso, o acolhimento precisa respeitar sua autonomia e seu tempo, sem transferir exclusivamente a ela a responsabilidade pelo enfrentamento da violência.
Direito, Medicina e Psicologia em diálogo
A programação reuniu três perspectivas profissionais que se complementam no atendimento. O Direito abordou os direitos e os caminhos de proteção; a Ginecologia contribuiu para o cuidado com a saúde física; e a Psicologia considerou o sofrimento e as repercussões emocionais da violência.
A integração ajuda a evitar situações de revitimização, que podem ocorrer quando a mulher tem sua palavra desacreditada, é responsabilizada pelo que sofreu ou precisa repetir desnecessariamente experiências dolorosas porque os serviços não se comunicam. “Uma mulher pode sofrer novamente quando sua palavra é desacreditada, quando é responsabilizada pela violência ou quando precisa repetir desnecessariamente experiências dolorosas em serviços que não dialogam entre si”, destaca a professora.
O trabalho conjunto requer comunicação responsável, respeito à privacidade e encaminhamentos acompanhados. A mulher deve permanecer no centro do cuidado, com suas necessidades consideradas nas decisões sobre segurança, saúde e proteção. A universidade também tem papel na preparação dos profissionais para reconhecer situações de violência e realizar encaminhamentos adequados. Segundo Ana Paula, discussões de casos, atividades práticas supervisionadas e aproximação com os serviços da rede ajudam a transformar o conhecimento acadêmico em atuação profissional.
Programação em Jaú
O Simpósio Violência contra a Mulher foi realizado, no Anfiteatro da Unoeste em Jaú. As atividades foram organizadas em três palestras: “Direito, suporte e proteção”, com a juíza doutora Daniela Almeida Prado Ninno; “Atendimento ginecológico e humanizado em mulheres vítimas de violência”, com a ginecologista e obstetra doutora Jéssica Aparecida Marcinkevicus; e “Entendendo o trauma: acolher, proteger e ajudar uma mulher vítima de violência”, com a psicóloga Aline Maria Mendes Caetano Mola.
Notícia disponibilizada pela Assessoria de Imprensa da Unoeste